4. A Grande Multidão e os 144.000 quem são?

A identidade da grande multidão e dos 144.000 descritos no Apocalipse é central para a doutrina das duas esperanças ensinada pelas Testemunhas de Jeová.

Segundo essa doutrina:

  • Os 144.000 são cristãos com esperança celestial.
  • A grande multidão são cristãos com esperança terrestre.
  • São dois grupos distintos com destinos diferentes.

Mas será que o texto realmente ensina essa distinção?

Neste estudo, analisamos o próprio texto bíblico respeitando o contexto literário do Apocalipse, seu simbolismo e seu padrão narrativo.

Onde Está a Grande Multidão? Onde Estão os 144.000?

Em Apocalipse 14:1 lemos:

“Então vi o Cordeiro em pé no monte Sião, e com ele 144.000, que têm o nome dele e o nome do seu Pai escritos na testa.”

O Monte Sião, no contexto do Apocalipse, está associado ao cenário celestial.

Agora observe Apocalipse 7:9:

“Depois destas coisas vi, e eis uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro.”

Onde está o trono?

Apocalipse 4:2 declara:

“Eis armado no céu um trono, e no trono alguém sentado.”

O próprio livro define a localização do trono: no céu.

Se a grande multidão está diante do trono, e o trono está no céu, o cenário é celestial.

Apocalipse 19:1 — Uma Grande Multidão no Céu

O próprio Apocalipse remove qualquer dúvida adicional em outro ponto do livro.

Apocalipse 19:1 afirma:

“Depois destas coisas, ouvi no céu como que uma grande voz de uma grande multidão, que dizia: ‘Aleluia! A salvação, e a glória, e o poder pertencem ao nosso Deus.’”

A Tradução do Novo Mundo é ainda mais explícita:

“Depois dessas coisas, ouvi o que parecia ser a voz alta de UMA GRANDE MULTIDÃO NO CÉU. Eles diziam: ‘Louvem a Jah! A salvação, a glória e o poder pertencem ao nosso Deus.’”

Aqui o texto declara claramente: uma grande multidão no céu.

Não se trata de inferência. O texto afirma diretamente.

O Apocalipse não apresenta duas “grandes multidões” distintas com destinos diferentes. Ele reapresenta o mesmo povo redimido em diferentes momentos da visão profética.

Assim, Apocalipse 19:1 reforça o cenário celestial já indicado em 7:9-15.

A Mudança Doutrinária de 1935

Até 1935, as publicações das Testemunhas de Jeová ensinavam que tanto os 144.000 quanto a grande multidão tinham esperança celestial.

Sob a liderança de Joseph Franklin Rutherford, teve uma nova luz, essa interpretação foi alterada, estabelecendo oficialmente duas classes com destinos distintos.

A questão fundamental é: Será que foi o texto bíblico que mudou ou foi a interpretação da organização que mudou?

João Ouve 144.000 e Vê uma Grande Multidão

Apocalipse 7:4 declara:

“Então OUVI o número dos que foram selados: 144.000.”

Logo depois, Apocalipse 7:9 diz:

“Depois destas coisas VI, e eis uma grande multidão, que ninguém podia contar.”

João ouve um número específico e uma multidão incontável.

Esse padrão já aparece em Apocalipse 5:5, 6 quando ele ouve falar do “Leão da tribo de Judá”, mas um “Cordeiro”.

Ouvir uma descrição e ver outra perspectiva é um recurso literário recorrente no livro de Apocalipse.

Uma explicação coerente é que os 144.000 e a grande multidão representem o mesmo grupo sob duas perspectivas simbólicas:

  • Como Israel espiritual organizado (número simbólico).
  • Como multidão internacional redimida (descrição universal).

A Descrição dos Redimidos

Apocalipse 5:9, 10 afirma:

“Compraste para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação; e para o nosso Deus os fizeste REINO e sacerdotes, e REINARÃO sobre a terra.”

Aqui é essencial precisão textual.

O grego utiliza o verbo basileuō — “reinar”. O texto afirma que reinarão; não afirma que recebem o título formal de “reis”. Como um príncipe que exerce autoridade delegada pelo rei e governa sob sua autoridade, eles reinam com Cristo, mas a soberania pertence exclusivamente a Ele.

O único explicitamente chamado “Rei dos reis” em Apocalipse é Cristo (Apocalipse 19:16).

Apocalipse 20:6 confirma:

“Serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com ele.”

Eles reinam com Cristo. O reinado é participativo e subordinado. Não são apresentados como reis independentes, mas como servos-sacerdotes que participam do governo sob a autoridade do Cordeiro.

Servem no Templo: Onde Fica Esse Templo?

Apocalipse 7:15 declara:

“Por isso estão diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu templo.”

A palavra grega usada é naós, que se refere ao santuário interno, o lugar da PRESENÇA DIVINA.

Apocalipse 11:19 afirma:

“Abriu-se o templo de Deus que está no céu.”

No Apocalipse, o naós está no céu.

Se a grande multidão serve no naós e está diante do trono, o cenário é celestial.

Reinam — Mas Sob a Autoridade de Cristo

Apocalipse 22:3-5 declara:

“O trono de Deus e do Cordeiro estará nela, e os seus servos o servirão… e reinarão pelos séculos dos séculos.”

Novamente, o verbo indica ação de reinar.

Eles reinam com Cristo. Ele continua sendo o único soberano absoluto, o único mediador e o único “Rei dos reis”.

O reinado dos santos é delegado, participativo e funcional.

Conclusão: O Que o Texto Realmente Revela

A leitura contextual do Apocalipse conduz a conclusões claras:

  • A grande multidão está diante do trono no céu.
  • Apocalipse 19:1 afirma explicitamente a existência de uma grande multidão no céu.
  • Serve no naós, o templo celestial.
  • É descrita com as mesmas características universais dos redimidos.
  • O padrão ouvir/ver sugere duas perspectivas simbólicas do mesmo grupo.
  • Os remidos reinam com Cristo, mas não como reis soberanos independentes.

A distinção rígida entre 144.000 celestiais e grande multidão terrestre não é declarada explicitamente no texto do Apocalipse.

Quando o livro é lido respeitando seu contexto literário e seu simbolismo, o que emerge é um único povo redimido, selado, purificado e diante do trono de Deus e do Cordeiro, participando do Reino sob a autoridade suprema de Cristo.

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No próximo estudo, vamos responder: Os 144.000 e a Primeira Ressurreição.

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